Crônica de sexta

Tempo. Com alguma maturidade ele começa a pesar. O espelho já não é nosso melhor amigo. As manobras corporais insistem em nos atestar que há limites.
O sono, ah! O sono! Esse nos é tão raro quanto abundante havia sido na adolescência. Isso só para citar as evidências mais comuns da passagem dos anos.
Mas se o tempo é algoz da juventude, da maturidade ele é o herói. Traz de volta a segurança, perdida em algum lugar entre a infância e a vida adulta. Você não tem mais receio de ser quem é: sabe como chegou até ali e isso basta.
Entende que há limites no corpo, na aparência; mas a mente, enfim, perdeu fronteiras, ganhou liberdade.
É na maturidade que enxergamos menos (bem menos), mas ganhamos visão ampla e irrestrita sobre a vida. A nossa, porque a vida dos outros só interessa se for para ser um complemento, um somatório.
Dormimos pouco, é fato. Mas quem precisa dormir tanto se sonhar já não é a prioridade? Os sonhos de outrora deram lugar a uma vontade louca de viver o hoje, o agora. Isso é o que importa. Já estamos no futuro que passamos a vida construindo.
E, então, finalmente nos damos conta de que não haverá mais futuro algum – ou pelo menos nenhum que valha a pena – se o presente não gerar lembranças avassaladoras. Lembranças que façam de nossa mente um lugar seguro, quando a aparência exterior já não fizer lembrar quem somos.

